Crônicas

Nosso mundo

Enquanto meu filho brincava, eu atestava a sua inteligência e engenhosidade, emocionado. Como ele crescera rápido? Ao mesmo tempo em que me surpreendi, me assustei, como se um portal se abrisse em minha frente. A verdade é que não acompanhei bem seus últimos dois anos. Claro, ocupado com o trabalho e as infinitas obrigações do dia a dia, perdi um pouquinho do seu desenvolvimento. Não, perdi muito, e o tempo não volta atrás. Na hora me apercebi disso e me deu uma vontade enorme de chorar, de me penitenciar, por tão grande desleixo. Controlei a vontade para não transparecer fragilidade. Mas ele reparou as lágrimas nos meus olhos e perguntou se eu estava bem, se sentia alguma dor. Tive de explicar-lhe sobre o que é estar emocionado, simplesmentepela beleza da sua existência. Ou seja, ele, com apenas cinco anos, se preocupava comigo, queria cuidar de mim, me livrar de minhas dores, algo que negligenciei vergonhosamente por anos. Nada justifica o abandono forçado que impus ao meu filho, ao meu único filho, mesmo morando na mesma casa, embaixo do mesmo teto. E olhe que foi o momento mais especial, em que eleaprendia a andar, a pronunciar as suas primeiras palavras, a interagir com o mundo. Hoje tive a oportunidade de observá-lo mais detidamente, seus trejeitos, sua manha em arrumar saídas para brincar; em criar articulações entre o mundo real e o fantástico. E o que mais me surpreendeufoi mesmo a sua inteligência, que lembrava a mãe, escritora, criadora de tantos mundos – ele vem de uma linhagem bem-sucedida de escritores, os avós maternos,que começaram a escrever, lançaram vários livros importantes, prestigiados, e eu via que o meu filho mantinha esse elo intacto; certamente será um grande escritor, se assim o quiser. Num domingo atípico, ficamos em casa. Foi o instante perfeito para o nosso encontro de almas, sem forçar a barra, algo supernatural. Ele me mostrou o robô que criara. Incrível, para uma criança de cinco anos. Tem mobilidade e aparência mesmo de robô. Ele disse que seu sonho era ganhar um robô grande, para brincar com ele. Nisso percebi que ele estava sozinho, que eu o abandonara. Eu não atendia às suas expectativas. Precisava parar um pouco e lhe dar atenção. Eu, de fato, dera mais valor às ocupações do que ao meu filho, ao meu bem mais precioso. Era um compromisso que fazia ali, na mente, enquanto conversávamos. Não posso perder mais essa fase de sua evolução. Meus olhos lacrimejaram de novo, ele notou, e perguntou por que eu queria chorar. Disse que chorava de emoção, por amá-lo tanto. Ele ficou meio sem entender, baixou a cabeça e seguiu na brincadeira. Peguei seu bracinho miúdo e dei um beijo, como se pedisse desculpa. Ele me devolveu um sorriso de agradecimento. O tempo ainda há de nos conceder boas e fortes emoções.

Adriano Espíndola Santos

Adriano Espíndola Santos é autor de “O sussurro cálido da negação”, “Flor no caos”, “Contículos de dores refratárias”, “o ano em que tudo começou”, “Em mim, a clausura e o motim”, “Não há de quê”, “Amparo secreto”, “Viver morrendo” e “Arraia-ralé”. Advogado. Mestre em Direito. Especialista em Escrita Literária e em Revisão de Textos. Membro do Coletivo Delirantes. É dor e amor; e o que puder ser para se sentir vivo: o coração inquieto. instagram.com/adrianobespindolasantos/ e escreve no Crônicas Cariocas às sextas-feiras.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Botão Voltar ao topo

Adblock detectado

Desative para continuar